Forçar a criança a comer não funciona

Refeições que os adultos não gostam serão também rejeitadas pelas crianças

POR REDAÇÃO - PUBLICADO EM 09/04/2009

A recusa e a aversão aos alimentos são queixas freqüentes na infância, alcançando 25% das crianças normais. O problema vai muito além, quando analisamos crianças com dificuldades variadas em seu desenvolvimento, pois entre elas encontramos problemas na esfera alimentar em 80% dos casos. O nosso maior desafio é encontrar as causas da rejeição ao alimento e diagnosticar possíveis doenças orgânicas que possam estar originando a alteração do padrão alimentar infantil, ou, o que é mais freqüente, descobrir causas comportamentais e psicossomáticas, geralmente de origem familiar, que possam estar influenciando a recusa alimentar infantil.

Quando a criança se recusa a comer é necessário investigar inicialmente em que extensão isso ocorre. Muitas vezes, os pais ficam apreensivos porque seu filho come pouco, mas isso pode ser normal para aquela criança. Como alguns adultos que comem pouco e são normais, também algumas crianças tem um padrão alimentar bastante seletivo e se saciam com pouco alimento. Isso, na maioria das vezes, não revela doença ou risco nutricional. Para avaliar essa situação, nada melhor do que utilizar as curvas de peso e altura infantis para saber a adequação da criança. Crianças podem ser magras e saudáveis, mas quando aparecem sinais de desnutrição e atraso no desenvolvimento e no crescimento, estaremos diante de um quadro que merece investigação.

Algumas mães se desesperam diante da persistente recusa alimentar de seus filhos e usam estratégias para forçar a alimentação. Essa prática, em geral, não funciona ou piora a situação. Devemos procurar entender qual o sentido dessa recusa, se há alguma doença desencadeando tal comportamento ou se ela decorre de problemas da esfera psicológica.

O quadro pode ainda ser misto, ou seja, crianças com causas orgânicas podem ter transtornos alimentares quando sofrem com a imposição dos pais para que comam, podendo até desenvolverem aversão ao alimento. O contrário também pode ocorrer, ou seja, crianças com causas psicossomáticas de anorexia podem ter sintomas orgânicos, como vômitos, e desenvolverem refluxo gastro-esofágico secundariamente e não como doença de base. Todas essas situações são cercadas por angústias e ansiedades tanto por parte dos familiares, quanto por parte da criança, pois há sim um significado para os atos infantis, mas é preciso sensibilidade aguçada para percebê-los.

Geralmente, a mãe percebe uma diminuição do consumo alimentar de seu filho ao final do primeiro e ao longo do segundo ano de vida. Esse fenômeno é conhecido como anorexia fisiológica, pois, nessa fase há uma desaceleração do crescimento da criança, além de um maior interesse dela pelo ambiente ao seu redor, o que causa o desvio de atenção do alimento.

Por isso, não é recomendável distrair a criança enquanto ela está fazendo suas refeições, para que ela coma sem notar, pois essa prática diminui ainda mais o interesse da criança pelo alimento. Esta rejeição costuma coincidir com a descoberta da criança de que a mãe irá oferecer outro alimento mais palatável, por exemplo, um biscoito, diante da sua recusa em consumir a refeição.

Comida, não!
Refeições monótonas e pouco palatáveis, facilmente recusadas por adultos, serão também rejeitadas pelas crianças, sem que isso signifique inapetência delas. Neste sentido, as papinhas e sopas liquidificadas, que não permitem nem a mastigação, nem a percepção dos sabores individualizados dos alimentos contribuem para a recusa alimentar e reforçam a necessidade da elaboração mais cuidadosa das refeições das crianças.

Mesmo diante da correria da vida moderna e das dificuldades das mães em conciliar trabalho com a nova demanda da alimentação de seu filho, cuidados com o preparo das refeições infantis devem ser observados.

Dra. Ellen Simone Paiva Médica é especializada em endocrinologia e nutrologia. Diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.
Para saber mais, acesse: www.citen.com.br

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