Reconstrução mamária pode amenizar efeitos do câncer de mama

Remodelagem e implantes podem resgatar a autoestima

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 23/09/2010

Gerson Luiz Julio
Cirurgia Plástica

Outubro é o mês em que se comemora, no mundo todo, a prevenção e luta contra o câncer de mama. Ela tem uma simbologia toda especial. É ícone de feminilidade, sensualidade e maternidade. Por outro lado, o tratamento do câncer de mama, muitas vezes, requer a retirada parcial e até mesmo radical do seio. O resultado é são sequelas que associadas a tratamentos debilitadores como quimioterapia e radioterapia, causam profunda tristeza e melancolia na mulher.

O câncer de mama acomete de 8% a 12 % da população feminina até os 80 anos de idade. De causa multifatorial, apresenta a hereditariedade como um dos fatores mais importantes.

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Período pós-operatório requer atenção especial

Ao lidar com a doença, suas perspectivas e os estigmas do tratamento - quando se defronta com a falta da mama ou a deformidade resultante da cirurgia -, o período pós-operatório passa a ser muito complicado para a paciente.

É preponderante entender a reconstrução de mama como parte efetiva do tratamento do câncer mamário, pois o procedimento tem o poder de melhorar as perspectivas do período pós-operatório, alterar positivamente o humor, além de mudar o foco da doença e, com isso, ajudar a paciente a superar um momento muito crítico.

Muitas vezes, com o tratamento do câncer de mama, as perdas revelam-se maiores que a perda do órgão em si. As consequências vão além do aspecto físico e psicológico, podendo vir associadas a perdas afetivas, sociais e até mesmo profissionais.

Tipos de procedimento - quadrantectomia

A reconstrução de mama pode ser realizada nas cirurgias conservadoras (quadrantectomias), quando uma parte da mama é preservada e realiza-se a remodelagem do tecido que sobrou, fazendo-se, paralelamente, a simetrização da mama oposta. Isso resulta em um aspecto estético semelhante ao de uma mamoplastia.

Ao se defrontar com mamas muito bonitas - às vezes, até mais bonitas que no pré-operatório, pois há a possibilidade de se corrigir a queda, a hipertrofia ou até mesmo a falta de tecido glandular -, a paciente pode ficar extremamente feliz.

Nos casos de quadrantectomias, devemos sempre pensar nos efeitos da radioterapia, a qual aumenta, consideravelmente, a incidência de contratura capsular. Assim, devemos usar as próteses de silicone de forma precisa. Claro que o aspecto oncológico deve prevalecer, mas o efeito estético resultante é de fundamental importância para elevar a auto-estima, o que muito contribui para o tratamento como um todo.

A associação entre os cirurgiões oncológico e plástico é extremamente benéfica para a paciente, pois permite que o mastologista tenha uma preocupação somente com a parte oncológica, deixando a reparação para o cirurgião plástico. Com isso, o tratamento passa a ser mais preciso e completo.

Tipos de procedimento - mastectomia

"a reconstrução mamária é um aspecto fundamental no tratamento do câncer de mama"

Nos casos de mastectomia, onde a retirada da mama é total (incluindo aréola e mamilo), a reconstrução pode ser realizada imediatamente, no ato da retirada, ou tardiamente. A indicação da reconstrução imediata ou tardia passa pela avaliação de critérios clínicos da paciente, como: idade, ausência de doenças preexistentes e estadiamento da doença (avaliação de sua extensão e comprometimento).

Nos casos em que a reconstrução não é indicada de imediato, o procedimento poderá ser feito, normalmente, após o término dos tratamentos adjuvantes, como a quimioterapia e a radioterapia, aguardando-se de seis a oito meses após a mastectomia.

Após a mastectomia, entre as opções para a reconstrução de mama, é possível utilizar tecidos do próprio corpo, realizando o que denominamos de "retalhos": transferência de tecidos para a construção de uma nova mama, que pode ter como área doadora, por exemplo, o abdomen, as costas, e o glúteo. Quando optamos por utilizar o abdomen para esse fim, devemos pensar no ganho estético secundário. Ou seja, vamos realizar uma plástica de abdome associada, modelando e melhorando a região.

Devemos entender que, quando podemos oferecer às mulheres um ganho estético associado à reconstrução de mama, este ganho passa a ter um efeito na auto-estima, em um momento em que, normalmente, elas estão muito fragilizadas. Alguns trabalhos demonstram que as reconstruções que têm como área doadora o abdomen apresentam uma satisfação estética maior quando comparadas ao uso de próteses.

Tipos de procedimento - próteses

Outra opção é utilizar os implantes, ou melhor, as próteses de silicone, associadas ou não aos expansores de pele, também de silicone. Atualmente, podemos também utilizar as próteses expansoras, que permitem a reconstrução das mamas em um único tempo cirúrgico, realizando-se a expansão cutânea ao mesmo tempo em que se utiliza uma prótese definitiva. É o que denominamos de reconstrução em um único estágio, não sendo necessária a retirada desta prótese para o uso de outra, de silicone gel.

Além da reconstrução do volume mamário, devemos nos preocupar também com a reconstrução da aréola e do mamilo. Cabe aqui uma analogia entre a mama e uma montanha com neve no ápice. Nessa imagem, o que chama mais a atenção é a neve. Na mama, o que mais chama a atenção é a aréola e o mamilo. Então, é parte essencial da cirurgia a confecção de uma nova aréola e de um novo mamilo.

Atualmente, podemos programar a cor exata dessas áreas, tendo como parâmetro a aréola contralateral, assim como o tamanho e a projeção do mamilo de acordo com o mamilo da mama oposta. Nos casos de retirada das mamas bilateralmente, a reconstrução também acontecerá bilateralmente.

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Tipos de procedimento - adenomastectomia profilática

Outra situação relevante, hoje em dia, é a dos casos de adenomastectomia profilática. Sabemos que a hereditariedade é um fator muito importante no câncer da mama. Nos casos em que o histórico familiar é recorrente, devemos fazer um estudo genético. Se positivo, encontra-se um fator que predispõe ao câncer de mama. Podemos, então, remover somente o conteúdo glandular, preservando a pele e as aréolas.

Nestes casos, a reconstrução deve ser feita imediatamente, e normalmente pela preservação da pele e das aréolas. Utilizamos, para isso, as próteses de silicone e, em alguns casos, podemos utilizar as próteses expansoras, que favorecem os ajustes de volume no pós-operatório, ocorrendo maior grau de simetria mamária.

Tipos de procedimento - adenomastectomia profilática

Outra técnica utilizada nas reconstruções mamárias com emprego de próteses ou expansores é o uso do enxertos de gordura. Normalmente, ao realizarmos uma mastectomia, a espessura da pele resultante da cirurgia é fina, e o emprego das células gordurosas ajuda a deixar a espessura da pele mais grossa. Com isso, a consistência das mamas reconstruídas passa a ser mais agradável e natural ao toque.

Em geral, essa técnica não é utilizada na reconstrução imediata. Devemos aguardar o período de cicatrização e, após três a seis meses, podemos utilizar os enxertos de gordura. Estes são obtidos por meio de lipoaspiração, onde são necessárias de três a quatro sessões de enxertos para que o resultado seja satisfatório.

Em todas as suas possibilidades, a reconstrução mamária é um aspecto fundamental no tratamento do câncer de mama, pois permite que a paciente garanta sua qualidade de vida, podendo gerar relevante melhora, tanto da auto-estima quanto do quadro psicológico, no delicado período pós-operatório.