Negligência emocional: você tem, mas não sabe; como lidar?

Aprenda a identificar se você faz ou já fez isso consigo mesmo; saiba as consequências e veja como lidar

POR TATIANE GONSALES

Seu corpo está exausto, tem dormido mal, sente calafrios, mas você acha que é só um resfriado. Brigas com seu amor têm sido constantes, mas você acredita que é só uma fase. Seu filho te pede atenção, mas você enxerga que isso o deixará mimado. Não há uma motivação sequer em ir trabalhar e sempre se atrasa, mas você vê isso como normal.

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Estes são comportamentos comuns de quem sofre com negligência emocional e muitas vezes não percebe. E esta falta de olhar às próprias emoções pode acarretar em doenças psiquiátricas sérias, como a depressão.

Por isso, te convidamos a entender um pouco mais sobre o tema e descobrir formas de lidar com o que você sente.


O que é negligência emocional

A negligência emocional é a falta de compreensão e atenção aos próprios sentimentos. Dessa forma, acabamos deixando de dar a devida importância à nossa saúde mental e física.

A psicóloga Pamela Magalhães, especialista em relacionamentos, comenta que a negligência ocorre quando se extingue ou se evita o cuidado consigo próprio(a). Afinal, você cuida de si mesmo?

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"Deixamos de cuidar de nós mesmos quando abandonamos condutas importantes para nosso bom equilíbrio físico e mental; deixamos de exteriorizar emoções que são importantes. Quando temos escolhas destrutivas para o nosso funcionamento; não cuidamos da autoestima; e até quando não temos amor próprio", exemplifica.

É uma doença?

A negligência emocional é um comportamento, não podendo ser classificada como doença, transtorno ou distúrbio, de acordo com a psicóloga expert em relacionamentos, Aline Follmann.

Geralmente é uma consequência de demais patologias. Por exemplo, quando temos depressão acabamos negligenciando fisicamente e emocionalmente a nós mesmos e os outros, como filhos, pais e amigos.

Negligência emocional pode levar e estar ligada a outras doenças - Imagem: Shutterstock
Negligência emocional pode levar e estar ligada a outras doenças

Por outro lado, também pode ser a causa de demais doenças e transtornos. Afinal, descuido, falta de atenção e desinteresse podem desencadear outros problemas.

Como exemplo, quando ignoramos nossos sentimentos podemos nos tornar indivíduos extremamente submissos, com medo de ofender, machucar ou se opor aos outros - mesmo diante de abuso psicológico ou de poder.

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A negligência emocional também pode causar problemas relacionados à autoestima; incapacidade de autoaceitação; falta de disciplina; e dificuldade de receber críticas.

Diferenças entre negligência e imprudência

Negligência

Negligência e imprudência são termos frequentemente confundidos, pois ambos podem remeter à falta de cuidado.

Contudo, especialistas conceituam a negligência emocional como um abandono afetivo. É o deixar de olhar, de cuidar, de ter interesse. Por muitas vezes não é percebido pelas pessoas que exercem este comportamento.

Pela Lei, a negligência exercida pode resultar em penalidades quando o indivíduo abandona seus dependentes; ou quando esquece um objeto no corpo de paciente em cirurgia; ou ao realizar maus tratos a outras pessoas e animais.

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Imprudência

Já a imprudência é a falta de ponderação sobre um comportamento e suas consequências. Assim, acabamos por expor a nós mesmos ou o outro a riscos.

Em termos jurídicos, a imprudência é tida como má fé. Isso significa que uma atitude foi tomada mesmo tendo conhecimento das consequências negativas que ela poderia acarretar.

Portanto, é considerada crime culposo, em que o indivíduo assume o risco ao tomar aquela ação.

Tipos de negligência

A especialista Aline aponta que existem, em geral, três tipos de negligência:

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Negligência física

Quem nunca deixou de ir ao médico, se automedicou ou passou dias só comendo alimentos não-saudáveis? Todas essas atitudes caracterizam a negligência física.

É a falta de prestação de cuidados básicos a nós mesmos ou aos outros pelos quais somos responsáveis. Isso pode incluir a ausência de prestação médica, de alimentação adequada e de higiene, por exemplo.

Menosprezar a nós mesmos ou aos outros é um sinal de negligência emocional - Imagem: Shutterstock
Menosprezar a nós mesmos ou aos outros é um sinal de negligência emocional

Ou até mesmo o uso de vestimentas impróprias à temperatura do ambiente ou em péssimo estado. E mais: deixar de vigiar e cuidar dos filhos, aumentando o risco de acidentes domésticos, contração de doenças e abandono afetivo.

Negligência educacional

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A negligência educacional é a ausência de condições favoráveis para a formação intelectual e moral de alguém, mesmo consigo próprio.

Ou seja, quando nos privamos (ou privamos alguém) de ter escolaridade básica; quando nossas faltas em aulas se tornam frequentes e sem justificativa; e até quando permitimos hábitos que interferem no nosso desenvolvimento (como consumo de drogas, álcool e medicamentos sem orientação médica).

Negligência emocional

A negligência emocional é a omissão, descuido, desinteresse e descompromisso de cuidado e afeto a alguém, podendo ser a si mesmo, a familiares, amigos, colegas, idosos, crianças.

Nesse caso, as necessidades emocionais são ignoradas, privando o suporte emocional e compreensão dos sentimentos necessários ao desenvolvimento.

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É o tipo de negligência mais difícil de ser identificado, pois não apresenta sintomas físicos e muitos dos sinais são omitidos.

Como identificar

Estudiosos explicam que é difícil conceituar os variados sintomas de negligência emocional, pois são bastantes individualizados e ainda não há delimitações claras sobre eles.

Contudo, a psicóloga Pamela Magalhães indica os sinais mais comuns que auxiliam na identificação da negligência emocional conosco:

  • Falta de cuidado com a própria saúde
  • Sensação de ser estranho para si mesmo
  • Dificuldade em exteriorizar emoções
  • Insatisfação com a própria vida
  • Dificuldade em manter relações interpessoais e profissionais
  • Falta de comprometimento
  • Prejuízos no desempenho
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Crise de pânico
  • Problemas na vida sexual

Ao identificar um ou mais destes sintomas, procure ajuda profissional. Psicólogos e psiquiatras são os mais indicados, pois nos auxiliam a refletir sobre nós mesmos, nossas atitudes e, assim, termos escolhas mais conscientes e saudáveis em nossas rotinas.

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A especialista Letícia de Oliveira discute também alguns comportamentos que servem de alerta no diagnóstico de negligência emocional. São eles:

Fingimento sobre emoções

Nesse caso, fingimos que nossas emoções não existem, diminuindo a importância dos próprios sentimentos. Um exemplo clássico é esconder o ciúme ao parceiro(a) ou não relatar um incômodo em relação a colegas de trabalho.

Normalmente este fingimento é causado pela ideia de que ter essas sensações é "algo errado" e exteriorizá-las só trará problemas.

Fraqueza irreal

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Quando temos uma recaída por alguém que nos magoou, julgamos sermos fracos por "não superarmos" aquela situação. Quando erramos uma receita, julgamos sermos fracos por ficarmos chateados com algo aparentemente bobo.

Além da sensação de que certas emoções são erradas, a negligência emocional também pode causar a falsa impressão de que determinados sentimentos são sinônimos de fraqueza.

Negligência emocional é achar que damos conta de todos nossos sentimentos e problemas - Imagem: Shutterstock
Negligência emocional é achar que damos conta de todos nossos sentimentos e problemas

Sentimento de super-herói

O sentimento de super-herói é caracterizado pelo comportamento e pensamento de que é possível dar conta de todas as emoções, porque elas são vistas como irrelevantes.

É como se vestíssemos uma capa ou armadura de herói, tentando convencer a nós mesmos de que superaremos tudo sozinhos.

Um caso recorrente é quando nos sentimos tristes com um término de relacionamento, mas tentamos aparentar que está tudo ótimo aos olhos dos outros. Repelimos sentimentos não desejados, como se fossem errados.

Omissão em casos desrespeitosos

Quando sofremos um abuso moral de um superior no trabalho e não respondemos, denunciamos ou sequer agimos em relação a isso, estamos camuflando nossos próprios sentimentos em virtude de atos desrespeitosos dos outros conosco.

Pode ser desde uma atitude incômoda até um abuso moral, sexual, verbal. A conduta de omitirmos nossas emoções nestas situações pode favorecer sentimentos de culpa, fragilidade, vulgarização, medo e insegurança.

Menosprezo

Quem nunca julgou como frescura os sentimentos de alguém próximo que atire a primeira pedra. Seres humanos julgam o tempo todo, mas quando isso se torna frequente e desrespeitoso, se torna uma negligência emocional com o outro.

Quando um amigo desabafa conosco por estar ansioso e falamos "que exagero!", "que besteira!", "nem vale ficar assim por causa disso" ou frases do tipo, estamos negligenciando as emoções alheias.

Assim, temos descuido com os sentimentos do outro, falta de empatia e rebaixamos a pessoa, deixando-a com a sensação de fraqueza, inutilidade, frustração. Tudo isso pode aumentar ainda mais emoções negativas.

Doenças e complicações associadas

As principais complicações de saúde, tanto mental quanto física, associadas à negligência são:

Problemas físicos

A psicóloga Leticia de Oliveira diz que a principal tendência da negligência emocional é o adoecimento físico. Ou seja, nos tornamos mais propensos a adquirir doenças, de leves a graves.

"Se não olhamos para nossas emoções e não entendemos a importância disso, nosso corpo adoece como sinal de alerta de que precisamos parar, refletir e mudar alguns padrões de comportamento", comenta.

Quando nos negligenciamos emocionalmente, estamos propensos à desnutrição, atraso de crescimento, doenças infecciosas e queda da imunidade.

Complicações psicológicas

Além de abrir portas para crimes, a negligência emocional gera ainda desconfortos emocionais que podem levar a doenças psiquiátricas. Entre elas: depressão, ansiedade, bipolaridade.

Por sua vez, essas doenças podem resultar em casos mais graves, como suicídio ou mesmo na morte de outros indivíduos (ainda que crime doloso, quando não há a intenção de matar).

Há, ainda, maior tendência à baixa autoestima, consumo de drogas, agressividade, delinquência e comportamentos destrutivos.

Como não ser negligente consigo mesmo

Veja atitudes que podem ser adotadas calmamente no dia a dia e te ajudarão a lidar com a negligência emocional, segundo especialistas.

Veja atitudes que podem ser adotadas calmamente no dia a dia e te ajudarão a lidar com a negligência emocional, segundo especialistas.

1. Reconfigure escolhas

Antes de dormir, reflita sobre como foi seu dia. Pense no que poderia ter sido diferente e que te deixaria melhor, mais feliz. E quais dessas ações apenas dependem de você.

Sempre podemos fazer novas escolhas ou escolhas diferentes, configurando aos poucos nossa vida para que sejamos felizes.

Com paciência, sutileza e empatia, é possível superar a negligência emocional - Imagem: Shutterstock
Com paciência, sutileza e empatia, é possível superar a negligência emocional

2. Questione vínculos

Escolha bem o que você coloca em seu interior e como você absorve isso. Isso vale para alimentos, pensamentos e para pessoas.

Afinal, como você seleciona suas companhias e até mesmo o que vai comer? E como você cuida das pessoas à sua volta? Como elas cuidam de você e como isso interfere em suas emoções?

Estes questionamentos podem ser um caminho para repensar sobre o que está te levando à negligência emocional.

3. Reconheça limites

Às vezes abraçamos mais responsabilidades do que realmente somos capazes de dar conta. Somos cobrados de sermos bons profissionais, boas mães, bons pais, bons amigos, bons filhos, bons namorados.

Cobranças, responsabilidades e comparações são frequentes. Assim, parece nos faltar tempo para olharmos para nós mesmos e nos cuidarmos. Precisamos impor nossos próprios limites para não adoecermos.

Pense no quanto isso está afetando sua saúde. Verifique se tem ficado mais doente ultimamente, se sua indisposição aumentou, se você está se preocupando mais do que o necessário com algum âmbito da vida.

Não há nada de errado em avisar seu chefe de que está realizando uma tarefa importante e a outra demanda terá de ficar para amanhã. Pelo contrário: esta atitude te deixará focado em começar e terminar afazeres específicos para depois iniciar outro, o que aumentará sua produtividade.

4. Entenda obstáculos

Nós já passamos por nossos piores dias. Se estamos neste aqui e agora, significa que sobrevivemos. Sobrevivemos aos momentos mais catastróficos de nossas vidas.

Portanto, fomos capazes de ultrapassar, de uma forma dolorosa ou não, os obstáculos que surgiram em nossas trajetórias. Ou seja, somos fortes.

5. Procure ajuda

Não há nada de errado em procurar ajuda e isso não significa, de modo algum, que somos fracos. Psicólogos e psiquiatras são profissionais que estudaram por anos para nos auxiliarem.

Com eles, conseguimos trabalhar nosso autoconhecimento, percebendo comportamentos que antes pareciam invisíveis, e confiar mais em nós mesmos, nos tornando abertos a mudanças.

A especialista Aline Follmann lembra: "Está tudo bem em pedir ajuda. A psicoterapia te ajudará a não esquecer de si, não esquecer que você precisa reconhecer seu valor".

Como ajudar alguém negligente

Diálogo é a chave

Tente conversar com a pessoa que está sendo negligente. Porém, é muito importante que tenha abertura para o papo.

"Observe se a pessoa está aberta para receber algum tipo de orientação, colocação ou opinião. É preciso tato para não passar a imagem de que está se intrometendo na vida do outro", ressalta a psicóloga Pamela Magalhães.

Uma dica é apontar indiretamente como você cuida de si. Esta é a forma mais respeitosa e harmoniosa de lidar com a negligência do outro, pois você não a machuca e a permite ter reflexões a respeito do próprio comportamento.

Comente sobre quais condutas que você tem e que te fazem bem. A pessoa poderá te ouvir e analisar sobre o quanto você está cuidando da própria vida de forma saudável.

Se a pessoa não quiser conversar

É bastante comum que quem esteja sendo negligente não ofereça abertura o suficiente para uma conversa. Assim, costuma reprimir os sentimentos e se sente incomodada ao ouvir ou falar sobre emoções.

Nestes casos, é capaz da pessoa procurar ajuda somente quando está em descontrole, com patologias bem aparentes, doente fisicamente.

Mostre que você se preocupa com ela, sugerindo terapia e exames periódicos sem julgar seu comportamento ou ser direto ao ponto. O auxílio psicológico, por exemplo, pode ser sugerido como uma ajuda para aumentar ainda mais a produtividade ou até auxiliar em relacionamentos.

Incentive questionamentos

Ajudar alguém que negligencia a si mesmo ou os outros é fazer com que a pessoa enxergue o que a leva agir dessa maneira.

Em muitos casos, o negligente pode ter sido negligenciado pelos pais na infância, levando esse padrão de comportamento adiante durante todo seu desenvolvimento.

Diante disso, levante questionamentos em meio a conversas rotineiras. Comente sobre um caso que viu nos noticiários e que tenha relação com as atitudes da pessoa e pergunte o que ela acha sobre, mas sempre de forma sutil.

A sutileza, a paciência e a empatia são essenciais para lidar com a negligência emocional própria e dos outros.

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