Como amamentar logo após uma cesariana

Logo após que um bebê nasce via cesárea, em geral, não há qualquer empecilho ou problema em amamentar; veja as melhores posições

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 02/08/2019

Dr. Cláudio Basbaum
Ginecologia e Obstetrícia - CRM 11665/SP
especialista minha vida

É um fato concreto e já são conhecidas as vantagens e benefícios do aleitamento materno, tanto para a mamãe quanto para o bebê.

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Em geral, após um parto normal, a descida do leite (apojadura) se faz entre 48 e 72 horas, tempo necessário para que o mecanismo hormonal, propiciado pela sucção, promova o aumento harmônico da prolactina e da ocitocina. Até então, o bebê suga e se abastece com o colostro.

Quando o bebê nasce através de uma cesariana, o processo pode não seguir assim. Principalmente quando ainda não houve o início do trabalho de parto e, portanto, a placenta ainda não está madura, a harmonização hormonal se faz mais lentamente e a apojadura pode demorar mais um ou dois dias. Neste período, desde que a criança esteja em boas condições, nada deve ser oferecido como complemento (nem água, chá, leite).

O ideal é dar o seio e aguardar que a dinâmica aconteça naturalmente e de forma espontânea. Em qualquer condição de parto e com mãe e bebê sem restrições, é sempre desejável que o mesmo seja levado ao seio logo ao nascer. E isso significa que o bebê deve ser colocado no seio ainda na sala de parto, até mesmo antes da saída da placenta, já que nestes primeiros momentos ele está mais ativo e conectado com a figura e olhos da mãe.

Para o sucesso da amamentação, é necessário o aprendizado das técnicas para que o bebê esteja bem posicionado para abocanhar corretamente o mamilo e a aréola, não apenas o mamilo. Quando a mãe está previamente orientada, tranquila, posicionada confortavelmente, com o bebê devidamente alinhado junto ao seu corpo, trazendo-o em direção a mama, o recém-nascido começa instintivamente a sugar o peito. É importante não tentar fazer "manobras" para levar a mama para a boca da criança.

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Nas mulheres submetidas a cesariana, é recomendado:

  • Nas primeiras 24 horas amamentem deitadas com o ventre para cima
  • No segundo dia, fiquem de lado com o recém-nascido também de lado, com a barriguinha encostada na barriga da mãe, procurando deixar que mãe e filho se entreolhem
  • A partir do 3º dia podem oferecer o seio sentadas, tendo um bom apoio para os braços, com travesseiros ou cobertor dobrado debaixo do bebê e/ou nas costas da mãe, ou acomodado em posição invertida sobre um travesseiro

Mesmo logo após uma cesariana, em geral, não há qualquer empecilho ou problema em amamentar, salvo esteja algum problema médico, naquele momento, na mãe ou no bebê, ou se a recuperação pós operatória da cirurgia ou anestésica esteja mais lenta, dolorosa ou desconfortável.

A importância da primeira hora de vida do bebê

A proposta de oferecer o peito logo após nascer vem sendo altamente recomendada. Desde 1974 alterei radicalmente o ?ritual do nascimento" e passei a incluir na minha prática médica a amamentação ainda na sala de parto, mesmo nos casos em que era realizada uma cesariana.

A primeira hora de vida do bebê com a mãe, logo após nascer, tem sido chamada por especialistas de "golden hour" (hora de ouro). De acordo com a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), todas as rotinas com o bebê, como lavá-lo, pesá-lo e enrolá-lo em campos estéreis, devem ser evitadas até o bebê mamar, durante a primeira hora de nascimento.

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O aleitamento materno na primeira hora não só contribui para salvar a vida de muitos bebês como ajuda a mulher a ter leite mais rapidamente (efeito lactogênico) e auxilia nas contrações uterinas, diminuindo o risco de hemorragia pós-parto.

Segundo a UNICEF, a amamentação na primeira hora pode reduzir muito os índices de morte de milhares de crianças em todo o mundo, sobretudo nos países em desenvolvimento, já que mais de um terço da mortalidade infantil ocorre durante o primeiro mês de vida.

Embora a indústria tenha modificado o leite de vaca e criado o "leite em pó", sua composição em proteínas, aminoácidos, açúcares, gorduras e minerais são diferentes em quantidade e qualidade. Sua digestão é mais lenta e ao ser necessariamente fervido, perde qualidades de defesa e proteção contra doenças. Assim, oferecer leite de vaca ou em pó é mais trabalhoso, mais caro e menos benéfico para o bebê.

Benefícios do leite materno

Nada se compara ao leite humano. A alimentação no peito é a melhor, mais higiênica, mais prática e mais barata forma de oferecer benefícios indispensáveis ao bebê, como:

  • Nutrição: o leite materno tem a composição mais completa e adequada para o crescimento do bebê e o desenvolvimento do seu cérebro
  • Hidratação: não necessitam complementação com água ou chá
  • Proteção imunológica contra as diarréias e alergia: leite humano é um líquido "vivo", rico em linfócitos que produzem anticorpos, mais saboroso e mais adocicado. Tem açúcares especiais que promovem crescimento de uma flora intestinal rica em germes saudáveis, que impedem a surgimento de bactérias e vírus patogênicos no intestino do bebê, causadores de diarreias com grave desidratação, maior causa de óbito no primeiro ano de vida
  • Vínculo amoroso-afetivo ("bonding"): precoce e intenso, indispensável para a estabilidade emocional de mãe-bebê
  • Bom desenvolvimento psicomotor e social: estimulado pela liberação de substâncias na hipófise e cérebro materno, como a prolactina, ocitocina e serotonina.
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Quando o bebê permanece todo o tempo ao lado da mãe, com alojamento conjunto desde quando nasce, já suga o colostro, verdadeira "vacina" (por sua alta concentração em anticorpos) e permanece após a "descida do leite", mamando em ritmo conforme seu desejo (livre demanda).

Para que todos estes benefícios sejam alcançados, torna-se necessário que a equipe de saúde - e o pediatra em particular - ofereça orientação e aconselhamento aos pais, desde o pré-natal. As campanhas do Ministério da Saúde na Semana de Aleitamento Materno têm por objetivo ressaltar a importância do aleitamento materno sobre a saúde da mãe e do bebê, bem como chamar atenção da população sobre as metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Para as mães, eu sempre alerto que, embora a amamentação seja um fato natural e reflexo, em determinadas situações, não cabe a culpa por eventualmente não conseguir amamentar o quanto ou quando seria desejável. No entanto, é muito importante para prevenir eventuais frustrações, o "casal-grávido" seja orientado e tenha todas as informações antecipatórias sobre evolução do parto, pós-parto e amamentação.

Em conclusão, a amamentação pode e deve ser uma das fases de maior empoderamento e plenitude na vida de uma mulher, seja dando à luz por vias naturais, seja também através de um parto cirúrgico (cesariana). Este contato pele-a-pele, desde os primeiros momentos em que a criança chega ao nosso "mundo de fora" com toda certeza proporcionará, desde muito cedo, profunda e prazerosa ligação entre a mãe e o filho.

Entretanto, não podemos esquecer o importante papel do pai em todas as etapas, desde o pré-natal, no trabalho de parto e no nascimento, valorizando assim o papel da mulher-mãe, criando vínculo, confiança e favorecendo uma relação afetiva muito precoce e intensa com seu bebê, fatores indispensáveis para que tenhamos uma geração feliz e segura e, consequentemente, um mundo melhor.

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