Como vencer os mitos da adoção tardia

Não há motivo para temer burocracia extra ou traumas ao adotar uma criança com mais de cinco anos de idade

POR REDAÇÃO - PUBLICADO EM 03/12/2019

Muitas vezes, o sonho de ter uma família é frustrado pela infertilidade e outras limitações semelhantes. Nessas horas, a adoção pode ser a solução que aspirantes a pais e mães tanto buscam.

PUBLICIDADE

Segundo dados da Corregedoria Nacional de Justiça, 54% dos pretendentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção preferem inserir um bebê ou uma criança com menos de 5 anos de idade na família, enquanto 46% se dizem abertos à adoção tardia - a de crianças com 5 anos de idade ou mais.

Este último é um número bem maior que o de dez anos atrás, quando apenas 30% dos pretendentes aceitava a ideia de adotar uma criança mais velha.

Mas por que essa preferência por bebês ou crianças pequenas? "O sonho da maternidade ou da paternidade costuma vir com a necessidade de criação de uma criança desde o começo da infância. Quando as pessoas optam por uma adoção por não poderem ter filhos, é comum que prefiram adotar um bebê, muitas vezes por um desejo interno que parece mais próximo do modelo de maternidade e paternidade que geralmente nos é apresentado", afirma a psicóloga Denise Figueiredo, sócia-diretora do Instituto do Casal. "Além disso, os pais adotivos acabam optando pelo bebê por acharem que podem ter mais controle nas situações".

A psicóloga Ellen Priscila Correa, da Clínica Fértilis, complementa dizendo que, em muitos casos, o desejo de adoção passa pelo ideal de construção familiar projetado pela sociedade: gestação, bebê e tudo que envolve esses primeiros momentos. "Se essa família já teve seu desejo frustrado, vai buscar por meio da adoção de bebês pequenos viver essa experiência o mais próximo possível do que teria sido a gravidez planejada", explica ela.

NÃO PARE AGORA... TEM MAIS DEPOIS DESSA PUBLICIDADE ;)

Confira, a seguir, os cinco principais mitos relacionados à adoção tardia e entenda por que ninguém deve se prender a eles na hora de adotar uma criança.

O processo para adotar uma criança mais velha é mais difícil ou demorado?

A advogada Christiane Faturi Angelo Afonso conta que há quem acredite que o trâmite processual seja mais rápido ao adotar um bebê do que ao adotar uma criança mais velha. Ledo engano: o procedimento é exatamente igual para qualquer idade.

Ela e Débora Brandão, supervisora acadêmica da pós-graduação em Direito de Família e Sucessões da Ebradi (Escola Brasileira de Direito), listam as etapas do processo de adoção no Brasil - o correto, que segue todos os rigores da lei.

  • Procura-se a Vara da Infância e Juventude da cidade para saber que documentos são exigidos para seu caso (podem ser pedidos certidões, exames médicos, extratos bancários e mais)
  • O(s) pretendente(s) passa(m) por um curso qualificador, normalmente realizado lá mesmo
  • São feitas visitas a abrigos
  • O(s) pretendente(s) faz(em) acompanhamento em um Grupo de Apoio de Adoção até atingir a carga horária determinada
  • São feitas entrevistas individuais e conjugadas (caso seja um casal) para traçar um perfil psicossocial e cultural do(s) pretendente(s)
  • É feita uma visita à residência do(s) pretendente(s), para checagem do ambiente em que a criança será inserida caso a adoção se concretize
  • O(s) pretendente(s) indicam onde pretendem adotar (se apenas no estado ou em nível nacional) e o perfil da criança desejada - aqui entra a possibilidade ou não de adoção tardia
  • É produzido um laudo que será anexado ao processo de adoção
  • O processo é submetido para parecer do Ministério Público
  • Um(a) juiz(a) emite uma sentença declarando se o(s) pretendente(s) está(estão) habilitado(s) ou não para adoção
  • Em caso positivo no item anterior, é feita a inscrição do(s) pretendente(s) no Cadastro Nacional de Adoção.

Não existe um prazo limite para a duração desse processo, mas ele costuma cerca de nove meses, independentemente da faixa etária preferida para a criança. Christiane ressalta, porém, que quanto mais abertos os pretendentes forem em relação ao perfil da criança, menos demorado é.

NÃO PARE AGORA... TEM MAIS DEPOIS DESSA PUBLICIDADE ;)

"Alguns buscam a adoção de bebês com características semelhantes às da própria família, o que pode dificultar o encontro de uma criança. Se as escolhas tiverem poucas restrições, a possibilidade de uma adoção mais rápida é muito maior", diz. Por isso, uma adoção tardia, por ser menos procurada do que a de bebês, pode ser resolvida em menos tempo, na realidade.

Depois disso, o pretendente pode ser chamado a qualquer momento pela Vara da Infância e Juventude para fazer a aproximação com uma criança que esteja dentro do perfil escolhido. Esse estágio de convivência é a segunda etapa do processo, e as visitas podem ser mensais ou com outra periodicidade combinada.

Se a aproximação for bem-sucedida, inicia-se a terceira etapa, que é o processo de adoção em si. Depois de uma fase de tramitação de documentos e entrevistas, o juiz determina a expedição de uma certidão de nascimento da criança com os dados dos pais e dos avós adotivos. Nesse meio tempo é expedido um termo de guarda provisório para fins de adoção, para que a criança já possa ser incluída no plano de saúde, no imposto de renda e possa ser matriculada na escola.

É mais difícil a adaptação da criança adotada mais velha à nova família?

A psicóloga Denise Figueiredo observa que "muitos pais adotivos acreditam que a criança já vem com personalidade formada", o que pode tornar mais difícil a adaptação de um pequeno com mais de cinco anos de idade. Na prática, isso é bastante diferente.

"Não podemos deixar de pensar que é da constituição do ser humano a busca pela felicidade. Crianças pequenas e adolescentes em processo de adoção desejam uma família, desejam amor, carinho e felicidade. E ainda que tenham alguma história de vida difícil, com algum cuidado tudo pode ser manejado para que o processo de adoção seja um sucesso para todos", afirma a psicóloga Ellen Correa.

NÃO PARE AGORA... TEM MAIS DEPOIS DESSA PUBLICIDADE ;)

Adotantes têm menos controle sobre a criança que é adotada mais velha?

Débora, da Ebradi, nota que a preferência por bebês na hora da adoção tem a ver com a crença em que não haverá trabalho de desconstrução de valores, hábitos, mas apenas a educação e criação de acordo com os costumes da nova família. Nas palavras de Denise, "quando se adota um bebê, pode se ter uma falsa ideia de controle sobre o que aconteceu na vida desta criança até o momento e o que virá a seguir durante todo o processo".

A psicóloga defende, porém, que "não é porque a criança é mais velha que necessariamente terá dificuldades que poderão gerar problemas". Note, ainda, que ela mencionou uma "falsa ideia de controle" ao falar da adoção de bebês. Trocando em miúdos, não existe relação entre a idade da criança adotada e o "controle" que os pais terão sobre o desenvolvimento da personalidade dela.

Quando já há filhos na família, a chegada de uma criança adotada mais velha gera problemas?

Não mais do que pode ocorrer com a chegada de um bebê se não houver preparo por parte dos pais. "Uma família deve se constituir a partir da valorização e da legitimação de todos os seus membros. O projeto de adoção deverá ser compartilhado entre todos os membros da casa e trabalhado com os filhos atuais no sentido de que chegará um novo irmão ou irmã, a tempo de trabalhar a resolução de conflitos e conter angústias e ansiedades naturais", explica Ellen. Denise dá uma dica: "ter uma rede de apoio e estar próximo de pais que viveram ou vivem essa experiência pode ser uma ferramenta importante".

É obrigatório fazer terapia familiar depois de uma adoção tardia?

Muitos candidatos a pais ou mães adotivos têm receio de fazer terapia familiar, mas não há motivo para isso. Pelo contrário: ela ajuda a observar as emoções e reconhecer e resolver dificuldades que possam surgir entre os membros de todas as idades. "A terapia de família é um recurso importante e faz parte do arsenal de instrumentos que ajudam nessa nova fase", diz Denise.

Segundo as especialistas, não há um tempo mínimo ou máximo para as sessões, mas sim o necessário para tratar as questões até chegar a uma adequação feliz do novo arranjo familiar.

NÃO PARE AGORA... TEM MAIS DEPOIS DESSA PUBLICIDADE ;)