Depressão: os papéis do psicólogo e psiquiatra no tratamento

Muito além da utilização dos remédios, trabalho em conjunto faz a diferença na recuperação do paciente

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 27/06/2016

Dr. Ivan Mario Braun
Psiquiatria - CRM 57449/SP
especialista minha vida

Psicólogos e médicos não psiquiatras podem diagnosticar a depressão, porém, por sua formação, é o psiquiatra o profissional mais capacitado para verificar e confirmar se a pessoa possui um transtorno depressivo ou não.

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Áreas de atuação

O trabalho do psiquiatra e do psicólogo são complementares.

A depressão não possui uma causa completamente conhecida, mas os estudos sugerem que se trata, em grande parte, de prejuízos na comunicação entre as células nervosas encefálicas, que ocorre principalmente através de substâncias químicas chamadas de neurotransmissores.

Ao lado dos aspectos biológicos, fatores comportamentais, como abuso repetido na infância, podem também estar envolvidos na gênese da depressão. Estudos de psicologia cognitiva observaram nas pessoas com depressão alguns vieses de pensamento que podem participar na manutenção da depressão. Entre estes, os mais conhecidos são a tríade identificada por Beck: pensamentos negativos em relação a si mesmo, ao ambiente à volta e ao futuro.

Estes pensamentos podem estabelecer-se com base em experiências negativas da pessoa, mas pecam por uma "hipergeneralização", ou seja, ela tende a ver de forma negativa tudo o que ocorre, mesmo que não haja indícios suficientes. Por exemplo, se a pessoa é malsucedida numa abordagem de "paquera", já conclui sobre si que é "um fracasso" e/ou que não vale a pena tentar nada, pois nada dá certo, mesmo.

Com base nestas observações nasceu a terapia comportamental-cognitiva, que procura corrigir os pensamentos do indivíduo deprimido, ao mesmo tempo que este é estimulado a ter atitudes que possam demonstrar o contrário de suas ideias negativas: por exemplo, fazer novas tentativas de "paquerar" e perceber que pode ser bem-sucedido.

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O que diz a ciência

Em pesquisas, foram encontradas alterações na neurotransmissão envolvendo uma série de substâncias, das quais a serotonina, a dopamina e a noradrenalina (ligadas à sensação de prazer) são as conhecidas há mais tempo. Mais recentemente estudos também detectaram o envolvimento de outras moléculas, tais como a colecistoquinina (um hormônio originalmente relacionado à contração da vesícula biliar), a melatonina (o "hormônio do sono") e a oxitocina (originalmente relacionada à contração uterina).

É importante lembrar que não se trata de uma simples "falta" ou "excesso" destas substâncias, como muitos leigos acreditam, porém de uma série complexa de eventos envolvendo, também, receptores (as moléculas na membrana celular às quais se prendem os neurotransmissores), neurotransmissores secundários (que atuam dentro da célula e não entre uma célula e outra) e alterações em longo prazo das conexões entre os neurônios. Este componente biológico da depressão é tratado com remédios, indicados pelo psiquiatra - que conhece melhor o mecanismo de ação dos medicamentos e quais devem ser usados nas diversas manifestações.

Os quadros depressivos costumam melhorar muito com o tratamento e, na maioria dos casos, os sintomas desaparecem totalmente. Entretanto, na maioria dos pacientes, o tratamento deve ser feito ao longo de vários anos e, em grande parte, mantido indefinidamente, pois a tendência à recaída é muito grande. É bom ressaltar que isto não ocorre apenas com transtornos psiquiátricos, também é comum em doenças clínicas como lúpus, artrite reumatoide, asma etc.

Existem indícios de que, pelo menos numa parte dos pacientes, o tratamento medicamentoso e a terapia comportamental cognitiva têm efeitos semelhantes (1,2), mas os estudos ainda não são conclusivos, de modo que, habitualmente, não se costuma dispensar as medicações no tratamento da depressão e o trabalho do psiquiatra e do psicólogo são complementares.

Alguns critérios para o diagnóstico da depressão

A depressão é um transtorno que se caracteriza por uma profunda tristeza e/ou desânimo e/ou perda do interesse ou prazer em atividades anteriormente prazerosas, associados a uma série de outros sintomas (foi convencionado que são suficientes quatro deles para o diagnóstico):

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  • perda ou ganho de peso acentuado sem estar em dieta ou aumento ou diminuição de apetite quase todos os dias (em crianças, considerar incapacidade de apresentar os ganhos de peso esperado)
  • insônia ou excesso de sono quase todos os dias
  • agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observável por outros, não apenas sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento)
  • fadiga e perda de energia quase todos os dias
  • sentimento de inutilidade ou culpa excessiva, quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente)
  • capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outros)
  • pensamentos de morte recorrentes (não apenas medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, ou tentativa de suicídio ou plano específico de cometer suicídio.*

Convencionou-se que estes sintomas devem estar presentes por um mínimo de duas semanas. Para que se faça um diagnóstico de depressão, eles devem ser suficientemente graves para causarem sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

* Resumido de: American Psychiatric Association: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition. Arlington, VA, American Psychiatric Association, 2013.

Referências bibliográficas

1) Apóstolo J, Bobrowicz-Campos E, Rodrigues M, Castro I, Cardoso D. The effectiveness of non-pharmacological interventions in older adults with depressive disorders: A systematic review. Int J Nurs Stud. 2016 Jun;58:59-70. doi: 10.1016/j.ijnurstu.2016.02.006. Epub 2016 Feb 17.

2) Amick HR, Gartlehner G, Gaynes BN, Forneris C, Asher GN, Morgan LC, Coker-Schwimmer E, Boland E, Lux LJ, Gaylord S, Bann C, Pierl CB, Lohr KN. Comparative benefits and harms of second generation antidepressants and cognitive behavioral therapies in initial treatment of major depressive disorder: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2015 Dec 8;351:h6019. doi: 10.1136/bmj.h6019.

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