O preconceito por trás dos remédios que tratam a obesidade

É preciso compreender que dietas, exercícios e mudanças comportamentais nem sempre são suficientes para tratar obesidade

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 20/08/2018

Dr. Danilo Höfling
Endocrinologia e Metabologia - CRM 55221/SP
especialista minha vida

Obesidade é uma doença? Essa é uma questão amplamente debatida desde o século passado até recentemente, quando as mais importantes organizações profissionais ao redor do mundo passaram a reconhecê-la como doença.

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Entre tais entidades, estão a American Medical Association (AMA), World Obesity Federation (WOF), American Association of Clinical Endocrinologists, American Academy of Family Physicians, American College of Cardiology, Endocrine Society, Obesity Society, World Health Organization, Food and Drug Administration etc.

Dessa forma, assim como diabetes, hipertensão arterial, depressão, ansiedade, asma, mal de Parkinson, colesterol alto (hipercolesterolemia) e triglicérides altos (hipertrigliceridemia), a obesidade também é uma doença. A WOF menciona ainda que a obesidade se encaixa na definição de doença crônica, recidivante e progressiva.

Anteriormente considerado um problema somente em países de alta renda, sobrepeso e obesidade estão aumentando dramaticamente em países de baixa e média renda, principalmente nas áreas urbanas.

No Brasil, a prevalência da obesidade, tanto em nas crianças, como em adultos, vem aumentando de forma alarmante nos últimos anos.

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Em um posicionamento publicado em 10 de maio de 2017, a WOF argumenta o seguinte: "Diagnóstico precoce e tratamento da obesidade infantil poderiam ser considerados semelhantes à vacinação", evitando uma doença com políticas proativas.

Assim, a resposta para a pergunta inicial é: obesidade é, sem dúvida, uma doença crônica, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal que apresenta vários riscos à saúde.

Além de reduzir a qualidade de vida, sobrepeso e obesidade são sérios fatores de risco para inúmeras doenças, incluindo diabetes, hipertensão arterial, infarto, AVC, asma, apneia do sono, vários tipos de câncer e até para a morte precoce.

Não bastasse o fato de estarem mais sujeitos a inúmeras adversidades, os obesos são alvo de discriminação desde a infância até a vida adulta, o que resulta em diversos problemas psicossociais. Apresentam, frequentemente, baixa autoestima, isolamento social, diminuição da mobilidade, depressão e ansiedade. Enfrentam ainda dificuldades no trabalho e até para conseguir emprego. Só os próprios obesos sabem o significado desse sofrimento.

Infelizmente, o preconceito contra a doença não para por aí. Muitas pessoas ainda têm um conceito ilógico e simplista de que a obesidade é somente uma escolha de estilo de vida causada pela gula individual.

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Seria mais ou menos dizer que os indivíduos adquirem suas doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes, depressão, hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia e osteoporose, simplesmente pelas suas escolhas comportamentais, tais como ingerir muito sódio, carboidratos simples, gorduras, pouco cálcio e vitamina D, não fazer exercícios etc.

Para essas últimas enfermidades, a orientação dietética, a prática de atividades físicas e as mudanças de estilo de vida, muitas vezes, são insuficientes para tratá-las, sendo imprescindível e amplamente aceito o uso de medicamentos. E por que não utilizá-los para obesidade também? O raciocínio não deveria ser o mesmo?

Prevalece ainda a intolerância irracional contra o tratamento medicamentoso dos obesos, que são frequentemente estigmatizados como responsáveis pela sua condição.

Já foi extensamente demonstrado que as causas da obesidade são complexas. Numerosos fatores estão envolvidos na gênese e manutenção da doença, desde a genética até fatores ambientais. O reconhecimento de que se trata de uma doença multifatorial é fundamental para a compreensão de que os obesos precisam da ajuda de medicamentos, pois muitas vezes a realização de dietas, exercícios e mudanças comportamentais não são suficientes para obter sucesso.

É um contrassenso aceitar naturalmente o tratamento medicamentoso das outras enfermidades crônicas, mas de forma preconceituosa, o da obesidade. Trata-se da única doença em que há discriminação tanto dos doentes, quanto de seu tratamento.

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A continuidade do tratamento é outra questão a ser esclarecida. Por exemplo, quando um indivíduo está utilizando um medicamento para tratar a pressão alta e o suspende, a pressão sobe. Se uma pessoa com diabetes descontinua os remédios, a glicemia sobe e assim por diante.

Ora, é natural que a maioria dos obesos também ganhe peso quando o tratamento é interrompido. Muitos necessitam de tratamento medicamentoso contínuo para o controle do peso e até de cirurgia para obesidade quando os medicamentos falham. O tratamento da doença é tão difícil que mesmo a cirurgia pode falhar.

Claro que não se deve fazer uso indiscriminado de medicamentos ou de cirurgia de obesidade. Os pilares do tratamento clínico continuam incluindo a dieta, o incremento das atividades físicas e as mudanças comportamentais. A opção para o emprego de medicamentos deve ser racional e realizada sob a indicação e o acompanhamento de especialistas.

Tratamento medicamentoso

O objetivo do tratamento é o de alcançar e manter uma perda de, pelo menos, 5% do peso corporal, uma vez que tal redução contribui para reduzir os riscos de aparecimento de doenças associadas com a obesidade.

De acordo com as Diretrizes Brasileiras de Obesidade da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólico), o uso de medicamentos no tratamento da obesidade e sobrepeso está indicado quando houver falha do tratamento não farmacológico, em pacientes com:

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  • IMC igual ou superior a 30 kg/m²
  • IMC igual ou superior a 25 kg/m² associado a outros fatores de risco, como a hipertensão arterial, diabetes tipo 2, hiperlipidemia (aumento de colesterol e/ou triglicérides), apneia do sono, osteoartrose, gota, entre outras.

Indivíduos com IMC normal e aumento da circunferência abdominal são considerados obesos viscerais (saiba mais no artigo Tipos de obesidade: conheça e diferencie) e devem ser tratados na presença de comorbidades (associação de duas ou mais doenças que aparecem de modo simultâneo num mesmo paciente) associadas à obesidade (Diretrizes Brasileiras de Obesidade, 2016 - ABESO).

Ainda há pouquíssimas opções de medicamentos antiobesidade disponíveis no mercado mundial. Podem ser empregados, de acordo com as particularidades de cada indivíduo e com a disponibilidade em cada país, agentes com diferentes mecanismos de ação, como:

Anfepramona, fentermina, femproporex, sibutramina e mazindol: atuam inibindo o apetite e/ou estimulando a saciedade;

Liraglutida: aumenta a saciedade e reduz a velocidade de esvaziamento do estômago;

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Orlistate: reduz a absorção de gorduras pelo intestino, que são eliminadas pelas fezes.

Como se pode ver, há apenas uma pequena quantidade de medicamentos disponíveis para tratar a obesidade. No Brasil, ainda há o problema da falta de disponibilidade de alguns dos inibidores de apetite. A fentermina, por exemplo, um dos inibidores de apetite mais empregados nos Estados Unidos, ainda não foi aprovada no Brasil.

É preciso deixar claro que, embora os inibidores de apetite sejam medicamentos antigos, eles são eficazes e seguros quando utilizados de maneira ética, ou seja, seguindo os critérios publicados nas diretrizes que expressam o consenso de especialistas no assunto. Além disso, são ferramentas de baixo custo que podem contribuir de maneira decisiva no tratamento da obesidade.

Por fim, é preciso acabar com o preconceito e entender que a obesidade é uma doença crônica que causa, todos os anos, inúmeras mortes ao redor do mundo. A doença tende a piorar com o passar do tempo, caso o obeso não seja submetido a tratamento adequado que inclui, em muitos casos, o uso contínuo de medicamentos.

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