Fumaça e chuva negra: como se proteger dos efeitos de queimadas

Poluição de queimadas tem se espalhado pelo país e causam riscos sérios de saúde aos brasileiros

POR TATIANE GONSALES - ATUALIZADO EM 23/08/2019

A região Sudeste do Brasil viu o céu escurecido em plena tarde na última segunda-feira (19). Isso ocorreu por uma soma de fatores e teve a contribuição dos resíduos de fumaças oriundas de queimadas no Norte e Centro-Oeste do país, sobretudo na Amazônia. Além do enorme impacto ambiental, o ocorrido pode gerar graves problemas de saúde aos brasileiros.

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Efeitos das queimadas

As queimadas jogam no ar diversas substâncias tóxicas ao organismo, principalmente o monóxido de carbono. Isso é extremamente perigoso para quem está próximo às regiões de queima.

Cidade de São Paulo às 15h da última segunda-feira - Foto: G1
Cidade de São Paulo às 15h da última segunda-feira

Carolina Salim, doutora em pneumologia pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que quem já sofre com problemas respiratórios tende a ter ainda mais prejuízos devido ao carbono espalhado no ar.

Isso inclui pessoas com asma, enfisema, bronquite, pneumonia, sinusite, rinite e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), por exemplo. Afinal, segunda a médica, "o pulmão desses pacientes já está mais sensível".

Bombeiros também são bastante afetados pelas queimadas, pois combatem diretamente o fogo e inalam muita fumaça.

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Grupos de risco

Desta forma, há alguns públicos que precisam ter maior precaução com os efeitos das queimadas, pois se encaixam em grupos de risco devido ao maior contato com a fumaça ou saúde mais fragilizada. São eles:

  • Pessoas com problemas respiratórios
  • Bombeiros
  • Idosos
  • Crianças,Bebês
Queimadas aumentaram mais de 82% entre janeiro até hoje comparadas a 2018 - Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace
Queimadas aumentaram mais de 82% entre janeiro até hoje comparadas a 2018

Doenças que surgem com as queimadas

De acordo com Carolina, a fumaça vinda de queimadas não ocasiona doenças pulmonares crônicas, como o DPOC (grupo de doenças que inclui o enfisema e a bronquite).

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A pneumologista alerta que, para quem não tem histórico de problemas respiratórios, os resíduos no ar podem no máximo causar uma inflamação, como a bronquite aguda.

A bronquite aguda, conhecida ainda por "resfriado torácico", é pontual e costuma durar de uma semana a 10 dias.

Sintomas

Os principais sintomas ocasionados pela poluição do ar oriunda de queimadas são:

  • Falta de ar
  • Tosse
  • Dificuldade para respirar
  • Chiado no peito
  • Pigarro
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Ao apresentar um ou mais sinais, procure o pronto-socorro mais próximo.

Como se proteger da fumaça de queimadas

A médica Carolina Salim comunica que se a fumaça persiste por poucas horas ou é originada de pontos muito distantes a você, ela pode não ser tão prejudicial à saúde.

Agora, para quem está próximo aos focos de incêndio, ela orienta a:

  • Usar máscara apropriada
  • Deixar janelas fechadas
  • Evitar contato direto com a fumaça
  • Utilizar umidificador de ar
  • Espalhar recipientes com água ou toalhas molhadas pela casa ou escritório
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As duas últimas dicas também servem para melhorar a qualidade da respiração em tempo seco, período em que geralmente ocorrem as queimadas.

Chuva negra

Alguns moradores da cidade de São Paulo relataram que, na última segunda-feira, chegou a cair água negra do céu devido à fumaça das queimadas de outros estados.

Garrafa de água cheia a partir de chuva negra em São Paulo - Foto: Leandro Matozo/GloboNews
Garrafa de água cheia a partir de chuva negra em São Paulo

Segundo a pneumologista, como a chuva é uma precipitação do ar, pode acontecer sim dela carregar a poluição em suas gotículas.

De acordo com Flavio Natal, chefe de meteorologia do INMET - Instituto Nacional de Meteorologia no estado do Amazonas, explica que as queimadas emitem aerossóis que são absorvido pelas nuvem.

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A chuva é um processo de limpeza da atmosfera que, ao cair, limpa a atmosfera. Mas traz consigo as impurezas para o solo. Ou seja, o fenômeno da chuva negra é um processo similar à chuva ácida de regiões muito industrializadas.

Contudo, para o profissional, a situação seria ainda pior caso não chovesse. Quando o ar está muito seco e existem queimadas, estes aerossóis ficam suspensos na atmosfera, deixam o céu escuro e com névoa seca associada com poeira, fumaça e outros poluentes.

Assim, se não ocorrer chuva e continuarmos recebendo fumaça sobre as cidades, o efeito à saúde será ainda mais agravado.

Pesquisadores da USP analisaram a água escura e identificaram reteno, uma substância presente em queimadas.

Já a análise realizada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) verificou que a fuligem presente na chuva era sete vezes maior do que o normal; e o sulfeto estava dez vezes acima da média.

Assim, a água negra pode ser de fato prejudicial à saúde se ingerida.

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Para os químicos, a nuvem de chuva absorveu essas substâncias e formou uma espécie de "gosma", dando origem às nuvens pretas.

Eles prometem novos testes a fim de verificar se pode haver repetição do fenômeno e se isso pode acometer cidadãos, chegando às torneiras.

Depressão e poluição do ar

Além dos problemas respiratórios, a poluição do ar, como a originada de queimadas, também está ligada a doenças mentais, como depressão e transtorno bipolar.

Os dados são de um estudo da Universidade de Chicago (EUA), divulgado nesta terça-feira. Foram analisadas informações de 152,4 milhões de pacientes com transtorno bipolar, depressão grave, esquizofrenia e transtorno de personalidade.

A pesquisa concluiu que a má qualidade do ar aumentou em 27% os casos de pessoas portadoras de transtorno bipolar e 6% de depressão.

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Queimadas florestais no Brasil

Há mais de duas semanas, florestas estão em chamas nos estados do Norte e Centro-Oeste do Brasil, se estendendo pelo Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Áreas da Amazônia e Pantanal têm sido afetadas.

Metade dos focos de incêndio estão na Amazônia - Foto: Bruno Kelly/Reuters
Metade dos focos de incêndio estão na Amazônia

Os incêndios já atingiram a fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia. O caso é considerado a pior série de queimadas florestais em sete anos.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a quantidade de focos de incêndio florestal cresceu 82% entre janeiro e agosto deste ano, comparada ao mesmo período do ano passado.

Desde janeiro até hoje foram registrados cerca de 72.900 focos de incêndio. A Amazônia tem sido a região mais afetada, com mais da metade dos casos. As ocorrências normalmente acontecem em áreas de desmatamento.

O período de inverno costuma contribuir para que queimadas ocorram devido à ausência de chuvas e tempo seco. Contudo, a empresa de meteorologia MetSul diz que as causas naturais não são suficientes para explicar a dimensão dos incêndios de 2019.

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Em nota, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade diz que o fogo já destruiu 32,5 mil hectares. O valor corresponde a 206 Parques Ibirapuera.

Chances de chuva nas regiões de queimada

Segundo o meteorologista Flavio Natal, o inverno é o período mais seco do ano em todo Brasil. Nesta época, é comum ocorrerem queimadas. Porém, ressalta que não existem condições climáticas no país que de fato favoreçam incêndios florestais naturais.

Aos próximos 10 dias, não há previsão de chuva acima do normal para o estado do Amazonas, bem como para o restante do Brasil. Aliás, Flavio ressalta que as condições de ar seco podem até se agravar nas semanas seguintes.

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