Não é sentença: histórias de quem vive graças à hemodiálise

Fazer filtragem de sangue por várias horas toda semana é rotina na vida de pacientes com hemodiálise, que contam suas histórias de esperança e superação

POR TATIANE GONSALES - PUBLICADO EM 31/01/2020

Por ano, 21 mil brasileiros se veem tendo de enfrentar uma nova realidade, ao lado de uma máquina que retira seus sangues, filtra-os para eliminar o que há de ruim e coloca-os de volta de onde saíram. Esse procedimento é um respiro para quem sofre de insuficiência renal e sobrevive graças à hemodiálise.

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Os dados são da Sociedade Brasileira de Nefrologia, que aponta que, no Brasil, há 770 clínicas de hemodiálise espalhadas por 350 municípios. Isso significa que apenas 7% do total de cidades brasileiras têm unidades vistas como sinônimo de salvação para aqueles que perderam as funções dos rins.

Os pacientes de hemodiálise costumam ter em comum a "surpresa" ao receber o diagnóstico de doença renal. Poucos imaginam que a hipertensão, diabetes ou uso excessivo de medicamentos podem ocasionar a falência desses órgãos tão essenciais à vida.

A notícia, portanto, exige que eles reconstruam suas rotinas superando adversidades e nutrindo a esperança de dias melhores. Aqui estão algumas dessas histórias.

Primeiros sintomas

Após o expediente na tropa militar de Portugal em 1997, Marco Sá, de 43 anos, teve vômitos, dor de cabeça intensa e indisposição repentina. Achou que era um mero mal-estar, até que se dirigiu ao hospital e recebeu a informação de que tinha uma infecção grave nos rins.

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No meu caso foi muito rápido. Fui ao hospital muito indisposto. Fiquei logo internado e comecei a hemodiálise no mesmo dia.

Os sintomas sentidos por Marco são típicos de insuficiência renal crônica. A doença se caracteriza pela perda do funcionamento dos rins, responsáveis por remover toxinas e o excesso de água do organismo.

Muitos pacientes sequer têm conhecimento sobre a falência de seus rins, pois a doença age em silêncio. São raros os casos de insuficiência renal com sintomas em estágio inicial. Quando os sinais começam a ser percebidos, significa que a enfermidade já está avançada, com os rins se esforçando para cumprir menos de 10% de suas funções originais.

Dificuldade de diagnóstico

Por ser uma doença prioritariamente assintomática, é comum que os sintomas de insuficiência renal crônica ocorram em decorrência de outras doenças que prejudicaram o trato urinário, causando danos aos rins. Este cenário torna a identificação da doença dificultosa e tardia.

A dificuldade de diagnosticar a falência dos rins foi um grande desafio para Vane Krause, professora aposentada de 38 anos, que sequer sabia da condição. Logo após o nascimento de seu bebê, passou a sentir fortes dores no abdômen e a quantidade de anticorpos em seu organismo subiu, indicando uma possível infecção.

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Inicialmente, os médicos suspeitaram de tuberculose. Porém, dois anos se passaram e Vane retornou ao hospital com mal-estar. A nefrologista de plantão diagnosticou a perda de função dos rins e iniciou a hemodiálise naquele mesmo instante, após três anos de dores.

Uma chance de sobrevivência

Quando notificada sobre a necessidade da hemodiálise, Vane entrou em pânico. "Sinceramente, eu achei que era o fim. Sentia dores terríveis e achava que não resistiria. Foi terrível. E para mim quem fazia hemodiálise era porque já estava morrendo", diz.

Aos poucos, ela percebeu que sua visão sobre o tratamento estava errada. Ao invés de uma sentença de morte, a hemodiálise era uma oportunidade de sobrevivência.

Chamada de "rim artificial" e "terapia renal substitutiva", a hemodiálise é um tratamento capaz de filtrar o sangue de pacientes com perda significativa ou total das funções renais, eliminando substâncias tóxicas do organismo.

Por meio de um acesso na veia do paciente (seja por cateter no pescoço, virilha ou tórax, ou por fístula no braço), o sangue é sugado pela máquina e passado por um filtro dialisador.

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No filtro, a água e substâncias impuras (como a ureia) são removidas e os teores de nutrientes no corpo são controlados. Depois dessa filtragem, o sangue retorna ao corpo do paciente pelo mesmo acesso venoso.

A hemodiálise não é capaz de curar a doença, mas consegue substituir as funções principais dos rins. Com isso, há uma grande melhora nos sintomas de insuficiências renais. E foi a partir disso que Vane passou a enxergar o procedimento sob um novo ponto de vista, aceitando-o como necessário para continuar vivendo.

Tenho meu filho, um marido maravilhoso, uma família muito unida e quero viver por muito tempo ainda.

Riscos de não fazer

Com falta de ar e diagnóstico de bronquite, Ana Claudia Daniel, de 34 anos, descobriu em 2010 que seus rins não funcionavam mais. Assustada após a primeira sessão em que implantou um cateter, acabou abandonando a hemodiálise por seis meses por não aceitar sua condição.

Ao suspender o tratamento, ela passou a apresentar falta de ar constante, até que foi levada às pressas para o pronto-socorro com dificuldade para respirar.

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O que ela não sabia é que a insuficiência renal crônica afeta todo o funcionamento do organismo, provocando queda de produção de células de defesa, instabilidade da pressão arterial, fraqueza dos ossos, alterações neurológicas e até coma. Por isso, é uma doença potencialmente fatal se não tratada.

Uma nova esperança

Foi diante do susto de perder a vida que Ana decidiu retornar à hemodiálise, realizada de forma convencional: sessões de 4 horas, três vezes por semana. Atualmente, ela sente que recuperou a vitalidade que lhe faltava.

Hoje, a dona do lar faz academia, passeia com os filhos e cuida da casa - atividades que só são possíveis devido à hemodiálise.

Quando passei a aceitar o tratamento, tudo começou a ficar melhor para mim. Hoje não me atrapalha em nada! Vivo uma vida normal e só tenho a agradecer pelo tratamento!
Ana Claudia durante sessão de hemodiálise - Foto: Acervo pessoal
Ana Claudia durante sessão de hemodiálise - Foto: Acervo pessoal
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Mudanças no dia a dia

Gaúcha de raiz, Vane Krause relata que teve de abandonar a paixão por churrasco ao iniciar a hemodiálise. Ela aboliu o sal e evita produtos de origem animal, devido ao controle de sódio exigido no tratamento.

Realmente, quem faz hemodiálise precisa readequar o cardápio diário. Como grande parte dos pacientes têm diurese, é importante extinguir alimentos ricos em potássio, sódio e fósforo da dieta - já que essas substâncias podem se acumular no organismo por não serem filtradas pelos rins, para serem depois eliminadas na urina.

Embora sejam essenciais para o organismo, o excesso desses nutrientes pode levar à outras condições de saúde, como arritmia cardíaca, infarto e doenças ósseas. Por isso, leite, chocolate, sal, chá preto, chá mate, bebidas alcoólicas e produtos industrializados costumam ficar de fora das refeições.

Além disso, a quantidade de água também passa a ser restrita. De acordo com o nefrologista Roberto Galvão, a quantidade de líquido recomendada para pacientes em hemodiálise é de, no máximo, 1 litro por dia.

Nem um litro e menos exercício

Robervânia Rodrigues, que nasceu no Piauí e se mudou para São Paulo, teve de segurar o desejo por café, chá, sucos e até sopa. A recomendação para a dona do lar de 36 anos, que também sofre com insuficiência renal, é de ingerir somente 500mL de líquidos diariamente, seja do tipo que for.

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Mas não é somente a dieta que muda. Os pacientes que fazem hemodiálise costumam também reajustar tarefas que antes eram habituais, principalmente as que envolvem bastante movimento.

A rotina de exercícios de Vane era intensa, com atividades como ciclismo, hidroginástica, pilates, montanhismo, handebol e vôlei. "Não consigo mais 'aprontar' com meu filho, ensiná-lo a andar de bicicleta ou descer no toboágua em parques aquáticos. Não posso subir montanhas, desbravar mato", relata.

Apesar das novas limitações, ela se sente grata por ter ultrapassado obstáculos e hoje ter uma melhor qualidade de vida. "Eu agradeço muito, porque ainda consigo ir e vir sozinha, dirigir e aproveitar a vida", reforça.

A positividade também é parte fundamental na vida de Marco. Devido à fadiga decorrente da hemodiálise realizada três vezes por semana, hoje ele é aposentado por invalidez, mas ainda conduz um bar em Marinha Grande, cidade portuguesa com cerca de 10 mil habitantes.

Com a doença renal, veio um quadro de anemia. Dessa forma, ele se sente mais cansado e acredita que se tivesse um cargo com tarefas mais pesadas e manuais, provavelmente não conseguiria se manter profissionalmente ativo.

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Para ele, o segredo após iniciar a hemodiálise está na adaptação. "Nunca parei de trabalhar. Tento me adaptar à minha condição física sempre. Me entregar à doença, não!", revela.

Marco mostra braço com fístula aplicada durante a hemodiálise - Foto: Acervo pessoal
Marco mostra braço com fístula aplicada durante a hemodiálise - Foto: Acervo pessoal

À espera de um transplante

O sonho mais compartilhado entre aqueles que fazem a hemodiálise é o transplante de rim. Apesar de ser mais complexo, ele permite maior mobilidade aos pacientes, que não necessitam ir à clínica e têm menos efeitos colaterais (como pressão baixa e dor de cabeça).

Entretanto, o transplante renal não costuma ser uma opção facilmente acessível. As filas de espera para um novo rim costumam ser extensas. Ainda, é preciso que o rim do doador seja compatível com o do paciente solicitante, o que exige uma grande bateria de exames.

Porém, nem todos os casos de insuficiência renal crônica permitem o procedimento. Robervânia foi chamada três vezes para transplantar um rim. Mas apresentou anemia e diabetes, o que a impediu de realizar a cirurgia.

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O nefrologista Alexandre Carvalho Pinto Coelho esclarece que a hemodiálise costuma ser realizada enquanto pacientes estão na fila para transplante renal. O tratamento é feito até bem próximo à data da cirurgia, para reduzir possíveis complicações durante e após a operação.

Caso o funcionamento adequado do rim transplantado seja imediato, o paciente não precisará continuar com a hemodiálise. Se houver demora no restabelecimento do novo órgão, pode ser necessário manter a hemodiálise por um período.

Existe a chance ainda de ocorrer uma rejeição do corpo ao rim transplantado, mesmo depois de uma série de testes. Nestes casos, é necessário o retorno do tratamento com hemodiálise.

Marco viu sua vida melhorar ao receber um transplante de rim em 2001, depois de quatro anos de hemodiálise. Entretanto, após 14 anos, o corpo passou a rejeitar o transplante, fazendo com que retornasse ao tratamento e à fila de espera para um novo rim.

"Tudo fica mais fácil quando aceitamos a doença e nos agarramos às coisas boas que a vida vai dando. No meu caso, o transplante me deu também um filho e faço de tudo para vê-lo crescer", comenta Marco.

Nem tudo está perdido

Desde criança, Robervânia apresentava inchaços incomuns, que eram tratados apenas com repousos recomendados por médicos. Após anos, ela foi diagnosticada com falência dos rins, em decorrência de diabetes.

Nem tudo está perdido. Quando eu descobri que tinha perdido meus rins, eu estava longe da minha família. O médico me perguntou como eu estava me sentindo com a notícia e eu perguntei: 'Doutor, tem tratamento?' e ele disse 'tem, sim'. Eu falei 'então está tudo bem!'

Na época, ela estava trabalhando em São Paulo e sua família morava no Piauí, a uma distância de cerca de 2.500 km. Apesar da demora no diagnóstico, a dona do lar nunca se abalou pela insuficiência renal e dá um recado para quem descobre a doença, tendo de passar pela hemodiálise.

"Se você precisar fazer a hemodiálise, faça. Ninguém quer passar por isso, eu sei, mas a vida é boa e você vai vencer a doença. Fique tranquilo, se cuide e não desista!", declara.

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