Vacinação: uma questão importante também para os idosos

Carteira de vacinação continua sendo imprescindível

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 06/11/2008

O envelhecimento é um privilégio e uma conquista social. É, também, um desafio que causará impacto em todos os aspectos na sociedade do século XXI. Este desafio não pode ser endereçado apenas ao setor público ou privado, isoladamente. Requer parceria, articulação e estratégias . Towards Policy for Health and Ageing, WHO, Fev. 2004.

O Artigo 196 da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, declara que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visam à redução do risco de doença e de outros agravos e o acesso universal e equânime às ações e serviços. A mesma visão possuem a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso, que definem que deve ser garantida a esse público a assistência à Saúde, nos diversos níveis de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, na prevenção, promoção, proteção e recuperação, mediante programas e medidas que evitem as doenças.

Uma das principais medidas que preservam a qualidade de vida é a imunização, que se caracteriza como o processo de fazer com que um indivíduo se torne não-suscetível a uma infecção em particular. Nas últimas décadas, entre os maiores avanços observados na área da Saúde, a imunização vem ocupando um espaço progressivamente maior em todo o mundo.

O desenvolvimento da ciência, da microbiologia, da farmacologia e da imunologia tem se somado aos estudos de epidemiologia e de sociologia, que evidenciam o grande impacto que as vacinas representam atualmente para a sociedade, significando um dos principais fatores de promoção de saúde e de prevenção de doenças, principalmente ao evitarem muitas enfermidades graves e/ou infecciosas e as suas conseqüências, que reduzem não só o tempo mas a qualidade de vida das pessoas.

As doenças infecciosas constituem uma importante intercorrência clínica, freqüentemente relacionada à hospitalização e à morte dos idosos. Nesse sentido, pode-se destacar a importância das ações de prevenção centradas na aplicação de vacinas, medida já consolidada para a infância mas com prática ainda limitada e recente entre os idosos. A elevada taxa de mortalidade por doenças infecciosas, associadas ao envelhecimento, parece ser decorrente de complexo fatorial.

Em geral, são incluídas a menor capacidade de reserva funcional, as alterações nos mecanismos de defesa (disfunção imunológica e alterações intrínsecas à fisiologia do envelhecimento) e a concomitância de doenças crônicas degenerativas. As infecções respiratórias agudas de origem viral têm sido responsáveis por internações e mortes, particularmente de idosos e de portadores de doenças crônicas.

Vários estudos indicam que, após a infecção respiratória viral, ocorre uma maior suscetibilidade a fenômenos aterotrombóticos, descompensação clínica de diabetes, cardiopatias, doença pulmonar obstrutiva, entre outras. No âmbito da Saúde Pública, os idosos são o grupo mais vulnerável, em razão da idade associada à maior prevalência dessas doenças.

Estimativas indicam que a população mundial com idade mínima de 60 anos corresponde a 580 milhões de indivíduos, dos quais 355 milhões encontram-se nos países em desenvolvimento.

Em 2020, esses números deverão alcançar, respectivamente, um bilhão e 700 milhões. Um crescimento de 200% a 300% da população idosa é esperado em algumas nações especialmente na América Latina e no Sudeste da Ásia durante os próximos 35 anos.

No Brasil, existem hoje 25 mil pessoas com mais de 100 anos de idade (segundo a estimativa baseada no Censo 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE).

A população acima de 60 anos corresponde a 8,6% do total de habitantes do País, para quem são destinados cerca de 24% dos recursos do SUS. Na última década, os estudos sobre tendência temporal das taxas de mortalidade por doenças respiratórias, padronizados por sexo e idade, indicam um aumento particular entre os maiores de 75 anos.

Os idosos têm vivido mais e tido maior risco de adoecer e morrer por pneumonias e por outras causas respiratórias. Na população idosa, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) e o Ministério da Saúde do Brasil (MS/BR) preconizam a utilização das vacinas contra Influenza, Pneumonia Pneumocócica, Tétano e Febre Amarela se a pessoa residir em locais em que ocorrem as doenças ou quando for viajar para regiões endêmicas.

Todas essas vacinas estão disponíveis na rede básica de Saúde.
Influenza: A vacinação contra o vírus da Influenza (ou gripe) tem sido a medida mais efetiva no enfrentamento do problema. Embora vista como enfermidade trivial, a gripe, na população de idosos, pode trazer conseqüências graves, representadas principalmente pelas pneumonias, devido à rapidez com que se propaga. A vacina antigripal deve ser aplicada, anualmente, pelo menos duas semanas antes do início do inverno ou do período das chuvas nas regiões mais tropicais. Estudos revelam que, nos idosos, a vacinação reduz em 50 a 60% a gravidade da doença e a incidência das complicações e em 80% as taxas de internações, além da redução no uso de medicamentos.

Pneumonia: As pneumonias, em especial as de origem pneumocócica, estão entre as patologias infecciosas que mais trazem riscos à saúde dos idosos, com elevadas taxas de internação e de letalidade, sendo apontadas como fatores de descompensação funcional e de deterioração de quadros de insuficiência cardíaca, desencadeadoras de edema agudo de pulmão e de fonte de deterioração nos quadros de doenças pulmonares obstrutivas crônicas. Considerando-se as recomendações técnicas atuais, a vacina antipneumocócica deve ser administrada em dose única nos idosos, se mostrando segura e efetiva.

Tétano: Entre os anos de 1999 e 2004 foi observada a redução de 50% dos casos de tétano, devido à intensificação da aplicação da vacina dupla adulto (contra difteria e tétano). A grande maioria das hospitalizações para o tratamento do tétano ocorre em pessoas com mais de 60 anos de idade, que devem receber três doses da vacina antitetânica (se a mesma não estiver comprovada na caderneta de vacinação) e reforço a cada dez anos (antecipado para cinco em caso de acidente com predisposição ao tétano). Por ter a sua efetividade em quase 100%, a vacina dupla adulto é recomendada a todos os indivíduos idosos, principalmente porque essa faixa etária apresenta vulnerabilidade a acidentes domésticos.

Febre amarela: Para esta doença, recomenda-se a atualização da vacina nas pessoas idosas que residem em regiões de risco epidemiológico e naquelas com viagem programada para essas áreas, visando promover a sua proteção, uma vez que tem se tornado constante a formação de grupos de idosos viajantes em turismo ecológico, hoje em ascensão no País. A vacina tem dose única e requer reforço a cada dez anos, enquanto persistirem os riscos. As vacinas contribuem para um envelhecimento saudável, que significa preservar a capacidade funcional (de manter as habilidades físicas e mentais) dos idosos e a sua autonomia e manter o nível de qualidade de vida.

A vacinação é voltada às crianças, aos adolescentes, aos adultos e aos idosos, que simplesmente envelheceram e também necessitam ser vacinados.

Roudom Ferreira Moura é enfermeiro sanitarista. Pós-graduado em Saúde Coletiva, com enfoque no Programa de Saúde da Família. Especializando em Educação em Saúde CEDESS/UNIFESP e Saúde da Mulher no Climatério FSP/USP.

Docente e supervisor de estágio da Universidade Nove de Julho UNINOVE.

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