A influência da internet nos cuidados com a saúde

A ferramenta está cada vez mais ganhando espaço na vida das pessoas

ARTIGO DE ESPECIALISTA - PUBLICADO EM 15/07/2009

A informação é um bem precioso e vive uma fase sem precedentes no século XXI. Na área da saúde, essa realidade não é diferente, com os médicos sendo expostos a terabytes ou mesmo hexabytes de informação a velocidades cada vez maiores. Há evidências mostrando que o conhecimento médico tende a se duplicar a cada cinco anos. O número de ensaios clínicos subiu de 500, em 1970, para mais de 10 mil no final da década de 1990, indicando que apenas nas três últimas décadas a informação médica gerada supera todo o conhecimento acumulado em cinco mil anos.

Ao mesmo tempo, especialmente nos últimos dez anos, o acesso cada vez mais fácil às informações relacionadas à saúde, em virtude do uso da internet e de ferramentas de busca, como o Google, vêm fazendo com que os próprios pacientes, antes apenas receptores da informação, estejam passando também a detê-la, com repercussões importantes no âmbito da relação médico-paciente. Isso explica como a consulta médica vem se transformando mais e mais vezes em um verdadeiro diálogo de pesos iguais, onde tanto o médico como o paciente discutem e argumentam entre si as melhores opções de tratamento, custos e suas potenciais complicações, acabando, definitivamente, com a centralização das decisões apenas na figura do médico.

A utilização da internet para consultas de assuntos relacionados à saúde é uma realidade atual, com estimativas variadas de uso. Nesse sentido, foi constatado que cerca de 80% e 66% dos adultos, respectivamente, nos Estados Unidos e Europa pesquisam freqüentemente matérias de saúde. De modo geral, a maioria dos usuários leigos inicia uma pesquisa médica em um buscador, como Google e Yahoo. Nos Estados Unidos, identificou-se que apenas 15% das pessoas leigas afirmaram que sempre averiguam a data e a fonte da informação que estão lendo, ao passo que 10% disseram que fazem isso na maioria das vezes. Portanto, a maioria dos usuários americanos ou seja, cerca de 85 milhões de pessoas estão consumindo informação sem realizar uma avaliação consistente da sua qualidade.

E quais são os motivos que levam os pacientes a buscar informações sobre saúde na internet? Um levantamento sobre o assunto revelou as seguintes razões:
Mudar de decisão sobre tratamento da sua doença (70%);
Descobrir novas questões que os motivem a ouvir a opinião de outro médico (50%);
Influenciar sua decisão sobre ir ou não ao médico (28%);
Melhorar o cuidado com a saúde (48%).

No Brasil, foi realizado um estudo do impacto da internet na relação com o médico sob a perspectiva do paciente. A análise do conjunto de dados mostra que a maioria dos entrevistados acessa a internet com a freqüência de, pelo menos, uma vez por semana, utilizando-a para consultar informações sobre saúde e doença relacionadas a casos vivenciados por eles mesmos ou por seus familiares. Além disso, os entrevistados também recorrem à rede mundial, após as consultas, seja para verificar, entender ou mesmo complementar as informações fornecidas por seus médicos, de modo que os mesmos vêm assumindo cada vez mais uma postura mais participativa nas consultas posteriores.

Já na perspectiva dos médicos, alguns estudos apontam mudança nas decisões médicas quando os pacientes buscam informação em fontes na internet. A resposta inicial dos médicos consiste, a princípio, numa maior solicitação de exames, muitos sendo desnecessários, com o objetivo de se resguardarem de possíveis queixas e argumentações por parte dos pacientes. No caso do Brasil, é importante citar um estudo sobre a internet e seu impacto na relação médico-paciente que revelou os seguintes resultados: a reação do médico foi neutra, natural ou indiferente (5,08%); positiva (25,42%); contraditória, com argumentos tanto a favor como contrários (13,56%); e negativa (55,94%). Neste último caso, os médicos realmente confirmaram que não gostam que o paciente tenha informações técnicas, que discuta, questione ou conteste seus diagnósticos e procedimentos.

Diante do exposto acima, como vivemos na era digital, em que termos como blogs, redes de relacionamento e buscadores estão se tornando mais e mais freqüentes, não há como continuar ignorando a influência da internet na assistência à saúde. Também não há como impedir os pacientes de pesquisarem sobre as suas próprias doenças, mesmo que adquiram informações equivocadas, proveniente de sites sem qualquer rigor científico. Em vista disso, é importante que o médico, além de procurar exercer o melhor relacionamento possível com o seu paciente, também possua habilidades para gerir o excesso de informação a que vem sendo submetido. Isso lhe permitirá mais tranqüilidade e segurança no exercício diário da sua profissão.

Fernando Sergio Studart Leitão Filho é pneumologista, professor da Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e um dos autores do livro Gestão do Conhecimento Médico: Guia de recursos digitais para atualização profissional.

PUBLICIDADE
Não deixe de consultar o seu médico. Encontre aqui médicos indicados por outras pessoas.